03 março 2017

Um tsunami chamado AVC

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AVC
No dia 15 de fevereiro minha mãe se sentiu mal e foi ao pronto atendimento do Hospital São Camilo, em Macapá. Relatou estar sentindo fortes dores de cabeça e uma dormência na perna e braço esquerdos do corpo. O médico, como um ser dotado do dom da premonição, afirmou que era apenas stress, receitou polivitamínicos e a mandou pra casa.

No dia seguinte, infelizmente, antes mesmo que um médico pudesse avaliar o resultado de uma tomografia que havia feito, minha mãe já apresentava um quadro de dormência total no lado esquerdo. Já não conseguia ficar de pé, e foi levada às pressas para o mesmo pronto atendimento (único hospital privado da cidade).

Ali, a negligência no atendimento novamente se manifestou, havendo demora para algo que deveria ser tratado como emergencial. Eu estava em Belém, e me desesperei ao receber a notícia de que ela estava tendo um AVC e não poder ajudar.

No dia seguinte à internação, nenhum neurologista havia sido chamado pelo hospital para avaliar minha mãe. Mesmo ela tendo plano de saúde, tivemos que contratar um às nossas expensas (e é muito caro) para que ela pudesse ser atendida por um especialista.

Mas o estrago estava feito. Segundo o médico, se no atendimento do dia anterior as medicações apropriadas para o quadro de isquemia (que ela já apresentava) tivessem sido ministradas, ela certamente não teria evoluído para o quadro clínico em que se encontrava.

Peguei o primeiro avião de volta para Macapá e às duas da tarde já estava no hospital. O que eu vi foi minha mãe numa situação desoladora: não falava e com o lado esquerdo do corpo todo paralisado. O medo de perde-la ou de que ficasse para sempre naquele estado bateu fortemente e eu desabei...

Foi muito difícil enfrentar a rotina do hospital. Minha mãe, que sempre foi uma mulher ativa e que sempre gostou de ser útil a todos, de uma dia para o outro, tornou-se totalmente dependente. Foi necessário por uma sonda na uretra porque ela já não podia controlar a necessidade de fazer xixi e, como já havia quatro dias que não comia nada (já que mal conseguia abrir os olhos), também foi introduzida alimentação por sonda.

Um simples banho tornou-se uma peregrinação extremamente exaustiva: carregar pra por na cadeira e dar o banho tomando todo o cuidado pra que ela não caísse da cadeira... assim se passaram vários dias durante a internação.

Depois de uma semana, ela já conseguia se alimentar e a fonoaudióloga liberou a alimentação, sendo a sonda retirada. A sonda urinária também. Apesar de controlar a necessidade de fazer xixi (até certo limite), como ela não consegue se levantar, passamos para o uso da arrastadeira, um objeto para que os pacientes possam fazer xixi sem sair do leito.

No dia 25 de fevereiro ela recebeu alta. Daí a gente pensa: “que alívio, agora vamos pra casa”. Só que quando a gente chega em casa, toma um choque de realidade. Como disse o neurologista dela depois: “a ficha cai”. Voltamos pra casa, mas não à nossa tão querida e desejada rotina. Tudo muda!

Toda a casa passa a girar em torno dos cuidados que um paciente acometido de AVC agudo inspira. O cérebro fica afetado não só em sua parte motora, mas também cognitiva. As percepções sensoriais ficam totalmente desreguladas e tudo isso junto torna necessária uma atenção constante ao paciente: uma hora tá frio, outra tá calor, quer fazer xixi, depois não quer mais, muitas dores, se fala coisas sem sentido... Com tudo isso, o cansaço bate no cuidador, e junto com ele o desespero!!!! A gente se pergunta como poderá viver assim a partir de agora e passa a duvidar da recuperação...

Mas a fé em Deus e as pequenas evoluções diárias nos dão um sopro de esperança. Três dias atrás, ela conseguiu fazer um pequeno movimento com a perna paralisada. Nunca pensei que algo tão pequeno pudesse trazer uma alegria tão grande. Foi uma luz no fim do túnel.

Segundo o neurologista, a ressonância mostrou que a lesão, apenar de extensa, não atingiu o córtex nem o tronco cerebral, o que dá à minha mãe boas chances de reabilitação, embora lenta. Ouvir o médico dizendo isso foi um acalanto, para mim e principalmente para ela, que vinha desenvolvendo um quadro depressivo, comum no caso dela. Mas ela se mostrou um pouco mais perseverante depois de ouvir o médico.

Hoje, 15 dias depois do AVC, estamos na luta. A fisioterapia foi iniciada e a previsão é que em mais ou menos seis meses ela possa estar com ao menos boa parte da capacidade motora reabilitada. A confusão mental também deve melhorar nesse tempo. Peço a Deus que assim seja, e que eu tenha forças pra continuar, porque a rotina é pesada, cansativa, e nos faz abrir mão de tudo que gostamos de fazer para cuidar de quem amamos.

Minha mãe sempre foi uma mulher guerreira, e agora que o tsunami passou, tenho fé de que tudo o que ele destruiu será reconstruído.


E que Deus continue nos dando forças até o momento em que tudo passar...

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